O processo de desumanização e suas graves consequências sociais

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Creio que, assim como eu, você já deve ter pensado, em algum momento da sua vida, que as pessoas estão perdendo a sua capacidade humana. Praticamente todos os dias eu me faço a mesma pergunta: o que está acontecendo com o ser humano?

Buscando algumas possíveis respostas, acredito que quando falamos que o ser humano está perdendo a sua essência, de certa forma, acertamos, pois é realmente isso que está acontecendo. Estamos perdendo a capacidade de enxergar o outro também como um ser humano e isso é preocupante, em diversos aspectos e essa será a abordagem desse texto.

O processo de desumanização consiste na retirada dos traços que nos caracterizam como humanos. A desumanização é um processo psicológico de demonização do outro, transformando-o automaticamente em inimigo. Esse processo se estende também a perda de valores éticos e morais, constituindo, em essência, além de um grave problema psicológico, mas também social. A soma desses fatores leva a um aumento da violência, da banalização das violações dos direitos humanos e, em última consequência, a banalização da própria vida.

Em relação ao olhar psicológico, não vou me atrever a falar, pois não é minha área. Vou me dedicar ao olhar sociológico dessa questão, até porque, empiricamente, todos estamos sentindo seus efeitos colaterais.

Esse processo de desumanização ocorre desde sempre, pois em todas as épocas da História nos deparamos com questões complexas, que demonstram que o ser humano nem sempre é priorizado nas relações e preocupações políticas e sociais, dado o menosprezo muitas vezes demonstrado pela própria vida humana e pela completa indiferença, por uma parcela da população, em face aos extremos sofrimentos a que foram submetidos determinados grupos étnicos ou raciais.

Trazendo para exemplos mais próximos da nossa realidade, a desumanização acontece quando vemos pessoas totalmente indiferentes ao sofrimento alheio, quando percebemos pessoas que simplesmente não se importam com nada, desde que elas não sejam atingidas. Pessoas que continuam agindo normalmente mesmo em meio ao caos, como na pandemia que estamos vivendo.

Em situações extremas, onde a dor e o sofrimento atingem parcela significativa da sociedade, o ato de não se abalar ou não se incomodar não demonstra autocontrole ou autopreservação, mas sim, algum tipo de psicopatia.

Se autopreservar e estabelecer limites é uma atitude sadia e necessária, mas não se importar é algo bem diferente. Pior ainda, quando além de não se importar, passa a contribuir com o caos.

Mas o processo de desumanização não se restringe a situações extremas, aliás, ele começa a se manifestar em situações corriqueiras e, exatamente por isso, não são considerados com a devida atenção. Como toda erva daninha em solo fértil, quando relegada, causa estragos.

A desumanização também se alastra para a vida política, na figura de líderes que menosprezam vidas em detrimento do capital financeiro. O dever maior de todo representante público é garantir e preservar o bem-estar social e a vida.

À medida que esses deveres são postos de lado, sem as devidas consequências legais, a sociedade caminha para um processo de deterioração perigoso, pois a partir do momento em que a preservação da vida não é mais importante, qual será o recurso necessário para se fazer recobrar à consciência? Quando a vida deixa de ser prioridade, o que substitui seu lugar? Acredito que quando chegamos a esse ponto, nos aproximamos muito da barbárie.

Mas retomando um pouco a fala, se a desumanização não é algo novo, por qual motivo a discussão dela se faz pertinente nesse momento? Não seria algo que, se ignorado, se resolveria como tantas outras crises pelas quais a humanidade já passou?

Escrevi o parágrafo acima não porque acredito nisso, mas porque já ouvi muitas pessoas falando algo semelhante a isso, como se ignorar um problema fosse a solução para esse problema, mas não é.

É fato que as crises são cíclicas, no entanto, isso me chama a atenção para outro ponto: elas são cíclicas porque não são resolvidas, são apenas postergadas ou simplesmente relegadas. Até que não tenhamos coragem de enfrentar um problema, ao invés de desaparecer, pelo contrário, ele somente vai se tornar cada vez maior.

A tendência é que, a cada nova crise, a sua intensidade e complexidade aumentem, pois todo problema não resolvido se potencializa. O que vivemos hoje é uma potencialização de tudo o que já jogamos para baixo dos tapetes em outras épocas.

Quando não enfrentamos as graves questões das desigualdades sociais, abrimos espaço para que novas ideias higienistas surjam. Aliás, o processo de desumanização está diretamente relacionado a questão das desigualdades sociais, pois os menos favorecidos, como regra, sempre são os mais desumanizados.

Ao retirarmos de um grupo social suas características humanas, facilitamos todo o processo de eliminação desse grupo, pois não o enxergamos mais como um semelhante. Essa é a lógica de qualquer sistema segregacionista e higienista.

Se eu tenho um olhar humano para alguém que está em situação de rua e passando fome, eu me vejo na dor dele, portanto, farei o possível para ajudá-lo, pois a fome dele é a minha fome, a solidão dele é a minha solidão, mas se eu o objetifico, ou seja, se eu olho para ele não mais como uma pessoa, fica fácil passar por ele e não enxergá-lo, pois ele não é mais uma pessoa, é algo muito próximo a um lixo descartável, que como todo lixo, precisa ser recolhido e descartado em local oportuno, uma vez que esse “lixo” torna o ambiente sujo e incômodo aos olhos dos privilegiados.

Resolver o problema por essa ótica desumana é muito mais simples, basta retirar o elemento do lugar. Uso elemento de forma intencional, pois isso descaracteriza a pessoa, o ser humano. Vamos lembrar que em abordagens policiais, ou mesmo em entrevistas após ações policiais, é muito comum ouvirmos a referência aos supostos criminosos como “os elementos”, “os indivíduos”, “os cidadãos” ou qualquer coisa que retire a sua individualidade. Isso não é algo desconexo ou sem uma intenção mais profunda.

Se você ouvir que foi preso o José dos Santos Oliveira, pai de família, que estava desempregado e, num ato de desespero, por ter filhos passando fome, perdeu a cabeça e cometeu um assalto, pois precisava levar comida a sua família que passava fome há dias, isso pode te sensibilizar, mas ao ouvir que o “elemento” cometeu um assalto à mão armada, fica muito mais simples, basta mandar a sentença condenatória de imediato: “que esse vagabundo vá para a cadeia” e pronto, tudo resolvido.

Mas a desumanização pode ser sentida em gestos muito menores também, como por exemplo, nas redes sociais que, ironicamente, são ferramentas importantes em todo esse processo de descaracterização do ser humano. Falo ironicamente, pois em tese, a razão das redes sociais seria aumentar a interação entre as pessoas, mas na prática isso acontece de uma forma distorcida, em bolhas, através de uma segregação intencional e programada pelas próprias redes.

Exceto as pessoas que você realmente conhece e convive, quem são seus demais “amigos” num ambiente virtual?

Por que é tão fácil atacar alguém num ambiente virtual, que não por acaso, está se tornando no ambiente mais tóxico da atualidade? Porque ali ninguém é humano. Falamos com nomes, com fotos, com pseudônimos, mas nunca com alguém com quem nos identificamos. Claro que existem exceções, mas infelizmente são exceções, pois a regra é outra e bem diferente.

Outro comportamento observado nas redes sociais é o chamado comportamento de manada, que claro, não ocorre só no ambiente virtual, mas também nele. O comportamento de manada é caracterizado por ações que a pessoa não tomaria se estivesse sozinha, mas num grupo, onde existem afinidades, a postura pode mudar e facilitar agressões e comportamentos criminosos, pois o fato de estar num grupo pode passar a sensação de impunidade e de fortalecimento.

As redes sociais e a Internet como um todo, facilitam esse comportamento, pois basta que uma pessoa inicie um processo de “linchamento virtual”, que em questão de minutos, milhares de outros vão se juntar. Esse é o efeito manada.

É comum observarmos nas redes, por exemplo, em notícias trágicas, como no anúncio da absurda quantidade de mortes diárias, pessoas reagindo com “risos”. Como alguém pode sorrir de quatro mil mortes por dia? Porque para ela não são mortes de pessoas, ainda que algumas possam ser suas conhecidas. Outro ponto, que falaremos logo a seguir, é o distanciamento ilusório que essas pessoas criam em relação ao grupo.

Outro ponto importante nesse processo de desumanização, é o comportamento desempenhado pelos que praticam esse ato. Se você fizer uma análise mais atenta desses perfis, tanto em redes sociais, quanto na vida, com pessoas próximas e que você interage no seu cotidiano, você vai observar que essas pessoas se sentem à parte da sociedade, nunca como parte integrante de um todo. Suas falas versam sempre mais ou menos nos mesmos tons, como por exemplo: “a sociedade é corrupta”, “o ser humano não presta”, “políticos são todos iguais”, “integrantes de um determinado partido político não prestam” e mais mil outras formas de se colocar como um ser à parte.

Cria-se a imagem mental de que se é superior. A sociedade é corrupta, mas eu não sou. As pessoas são ruins, mas eu sou um modelo a ser seguido. Políticos são todos iguais, mas eu não, eu sou um exemplo de ser humano.  Extrapolando um pouco, observamos que os conceitos nazistas da criação de uma raça pura não foram ainda enterrados como deveriam ter sido.

O fenômeno é interessante, pois ao mesmo tempo em que a pessoa se coloca numa posição de superioridade, ela também demoniza o seu oponente, que no caso, é qualquer um que ela não identifique como alguém igual a ela. O ambiente mental para qualquer tipo de violência está formado e justificado.

O caos que hoje se amonta começou há muitos anos, com os discursos do “tiozão do pavê”, nas falas críticas aos direitos humanos, que só servem para proteger bandidos ou no clássico “bandido bom é bandido morto”, entre tantas outras aberrações, mas que não foram encaradas com a devida seriedade, pelo contrário, eram tidas como “engraçadas”.

Qual bandido bom é bandido morto? Essa máxima serve se for para algum conhecido ou da família ou só serve para as pessoas que moram nas favelas e cuja humanidade lhes foram arrancadas?

A má notícia é que a reversão desse quadro não é simples, nem tão pouco rápida. Foram anos, décadas e séculos que fomos coniventes com a descaracterização humana de grupos étnicos, raciais e sociais e isso não se reverte por mágica ou mesmo por decreto.

Curiosamente, revendo as tais lembranças que o Facebook nos manda, hoje revi uma postagem minha, de alguns anos, quando uma pessoa me atacou num post onde eu falava sobre Educação, em especial, quando falei em Paulo Freire e na importância do amor no processo educacional. Essa pessoa falou que essa “histórica cafona de amor na educação era uma palhaçada”.

Continuo com a mesma opinião (provavelmente ela também) e ainda vejo que o processo educacional é sim um ato de amor, aliás, não sou eu que falo isso, só compartilho dos mesmos sentimentos e das mesmas opiniões de grandes educadores mundo à fora.

Talvez ela não tenha entendido a extensão do significado da palavra amor, que normalmente é confundido com sentimentos distorcidos e, talvez, pela sua fala, ela estava expressando a sua própria experiência em relação ao amor.

Somente o amor pelo ser humano, o amor na crença em uma sociedade mais justa e equilibrada é que poderão despertar em nós a reversão dessa desumanização que vivemos.

O amor não no sentido físico ou melodramático, mas no sentido da proteção, do cuidado, do incentivo e no desejo de ver o outro evoluir. Enfim, só esse ponto merece uma extensa discussão, mas aí entraríamos em outro viés, que pretendo tratar, mas num texto específico.

Quando digo que esse processo de reversão não será fácil e nem rápido, refiro-me a árdua tarefa de tentar explicar para as pessoas exatamente o que nos diferencia da barbárie, o que nos torna únicos, que é a nossa capacidade de sentir empatia, de nos colocarmos no lugar do outro, seja esse outro quem for, pois toda pessoa tem sentimentos que merecem ser respeitados.

Já tem algum tempo que deixei de acreditar que toda pessoa pode aprender e se tornar um ser humano melhor. Isso é triste, em especial para alguém que trabalha com Educação, no entanto, para além do lado utópico e sonhador que todo educador tem, também me vejo no dever de não me alienar, de tentar ser prático. Algumas pessoas não vão mudar, pois o papel de algozes lhes cai bem e elas estão muito à vontade nele e, enquanto se sentirem bem nessa condição, seja ela qual for, não haverá qualquer mudança.

Se queremos reverter esse mundo cruel, indiferente e insensível, não há muitos caminhos que não o de reumanizar a sociedade, que em síntese, consiste no processo de reumanizar cada ser humano e essa não é uma tarefa fácil.

Existem dois pontos importantes e distintos nessa complexa questão: um delas é o acolhimento e o amparo em relação aos que são desumanizados todos os dias, nas mais diversas situações. O outro, é o trabalho que deve ser desempenhado junto aos que são os responsáveis por essa desumanização.

O primeiro ponto é uma questão social, que merece toda atenção e precisa ser feito, no entanto, usando uma expressão popular, se nosso olhar ficar somente nos que são desumanizados, estaremos eternamente enxugando gelo, pois ficaremos o resto da vida somente fazendo acolhimentos, numa capacidade muito menor em relação à demanda de pessoas que precisam ser atendidas e, por outro lado, a máquina desumanizadora trabalhará com toda a potência, despejando a cada dia, centenas ou milhares de novas vítimas. Dentro dessa ótica, essa é uma guerra que não venceremos nunca.

Não digo que devemos priorizar uma em detrimento a outra, mas sim, trabalhar os dois aspectos em conjunto. Para que ainda possamos ter esperanças numa sociedade mais justa, precisamos continuar acreditando que as pessoas podem ser diferentes, exceto aqueles mais extremistas, que conforme já falei um pouco acima, realmente não acredito que estarão dispostos a mudar.

Existem muitas barreiras que precisam ser rompidas, existem muitos paradigmas que precisam ser quebrados, existem muitos comportamentos irracionais que precisam ser corrigidos e, acredito eu, somente a Educação será capaz de promover essas mudanças.

Finalizando esse texto, cito Paulo Freire, quando ele nos disse, sabiamente, que a “Educação não transforma o mundo. Educação muda as pessoas. Pessoas transformam o mundo”

Sejamos esses agentes transformadores. Se conseguirmos fazer qualquer diferença nesse mundo, por menor que ela seja, já terá valido à pena.

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