Educar é intervir no mundo!

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A leitura do texto “Ensinar exige compreender que a educação é uma forma de intervenção no mundo”, escrito por Paulo Freire, me provocou alguns questionamentos importantes, tanto em relação a forma como a Educação é vista e tratada, dentro de uma sociedade capitalista e conservadora, usada normalmente como ferramenta para manutenção do poder dominante,  quanto em relação ao papel do docente, que não pode ser mero reprodutor de conteúdos didáticos e pedagógicos, não relegando, naturalmente, a importância de nenhum conteúdo, mas não se limitando a ele.

Freire nos fala sobre a reprodução da lógica dominante, através da Educação, em linha com os teóricos do reprodutivismo, como Althusser e Bourdier, que falam da escola como um dos Aparelhos Ideológicos do Estado (AIE) capitalista, reproduzindo os padrões de desigualdades sociais e impedindo qualquer movimento no sentido de romper com esse padrão dominante.

A educação não pode ser uma ferramenta de perpetuação das desigualdades, por exemplo, ao proporcionar uma formação para os filhos das classes operárias, capacitando-os para servir ao mercado de trabalho com mão de obra especializada, enquanto propicia aos filhos das classes dominantes uma formação elitista, no sentido de eternizar os privilégios e as fortunas.

A luta maior da educação tem que ser exatamente no sentido oposto a essa lógica, ou seja, ela deve servir para promover a igualdade. Não a suposta igualdade pregada pelos defensores da meritocracia, pois não há de se falar em mérito quando as condições de disputas não são as mesmas e, como sabemos, isso é apenas uma falácia burguesa, que tenta vender a ideia de que todos podem ser o que quiserem ser, uma vez que as condições são postas a todos, bastando o esforço de cada um. Não são! A própria educação escolar propicia a desigualdade quando não promove o rompimento com a lógica dominante.

Não há, nunca houve e nunca haverá, por parte da classe dominante, interesse em permitir que a classe dominada tenha um despertar de consciência, pois o dia que o oprimido tiver consciência da sua condição e, mais do que isso, consciência do que o coloca nessa condição, os dias dos opressores estarão contados.

O medo da burguesia dominante é exatamente esse, motivo pelo qual, a Educação sempre é vista como algo menos importante, de onde se pode retirar recursos financeiros para compensar qualquer outra pasta governamental. Não há interesse em fazer as consciências despertarem, motivo pelo qual o autor considera a importância do papel do professor, suas responsabilidades e seus desafios diários.

A atividade docente deve transcender a mera reprodução de conteúdos didático-pedagógicos, não que estes não sejam importantes, mas ao promover somente a capacitação técnica, o professor reforça a lógica dominante do sistema capitalista burguês, pois ao invés de promover mentes livres e críticas, está apenas promovendo a  qualificação profissional, alinhando-se com a classe dominante, que se vale do discurso à favor da Educação, quando somente buscam satisfazer aos próprios interesses capitalistas.

Esse discurso hipócrita e capitalista até tenta se disfarçar atrás de um verniz bonito, mas basta uma análise minimamente mais crítica para se perceber que o jogo é apenas o aumento do próprio lucro, pois um trabalhador qualificado vai produzir muito mais, com qualidade e, por consequência, vai aumentar os lucros das empresas, alimentando a fome capital da burguesia, que não satisfeita, ainda vai massacrar o trabalhador com salários pífios, condições degradantes, além de utilizar o discurso mentiroso das dificuldades financeiras, das crises,  para justificar a exploração do trabalhador, que ironicamente, ao mesmo tempo que aumenta a fortuna do seu empregador, luta para ter o que comer em casa.

Diante desse quadro perverso, compete ao professor exercer seu papel no sentido mais amplo da prática do ensino, seu papel libertador, de dar voz aos que precisam gritar contra as desigualdades e contra as injustiças do mundo. A escola meramente reprodutora do sistema burguês, não pode encontrar solo fértil entre educadores comprometidos com o ideal transformador da educação.

A “justa ira”, como descreve Freire, é legítima e é necessária, a indignação tem que se fazer presente nas salas de aula, pois sem a indignação a tendência é a estagnação social, a despeito de todo sofrimento a que somos impostos. Sem isso, a classe oprimida vai se calando cada vez mais, sem lutar pelos seus direitos mínimos, apenas aceitando o “seu papel” na sociedade, que sempre será o de satisfazer o capitalismo, ainda que para isso, entregue sua própria vida e, ainda assim, não será suficiente. Não é o papel de nenhum professor, que honre a sua profissão, ter esse tipo de postura omissa, quando não, covarde.

A neutralidade, a passividade, a letargia diante das lutas dos oprimidos nunca poderão fazer parte do papel docente, pois a luta da Educação vai no sentido oposto, vai no sentido do despertar da consciência e, uma vez que a consciência esteja desperta, as revoluções acontecem.

Como responsáveis por esse processo revolucionário de transformação, não nos é direito a acomodação. Nossa luta tem que ser no sentido de promover o incômodo, a inquietação, motivo pelo qual, com certa frequência, somos atacados por governantes de praticamente todos os espectros políticos, pois somos uma ameaça à estabilidade da burguesia.

Não se trata de promover ideologias, como agora virou moda falar. Na verdade, o que buscamos é a queda da ideologia burguesa, que deseja se manter no poder indefinidamente e a qualquer custo. Essa é a briga que devemos travar, mas não esperemos que ela será aceita pacificamente, pois não será.

O desafio de todo professor será sempre o de tirar o véu que oculta as verdades, estimular os alunos na busca pelo conhecimento através do desenvolvimento do senso crítico e da fuga do senso comum, que é sempre o caminho mais cômodo, tranquilo e, normalmente, errado.

Questionar verdades absolutas, enfrentar discursos elitistas, confrontando-os com a realidade da maioria da população, desmontar argumentos falaciosos que tentam justificar a manutenção da centralização do capital, em detrimento do sofrimento e da fome do povo, são alguns dos desafios postos.

Na visão da elite, o professor é o agente do caos, denominação que, de certa forma, não está totalmente equivocada, uma vez que para todo processo de mudança é necessária uma boa dose de caos, para que, posteriormente, os fatos se reorganizem dentro de um novo ordenamento lógico. Os ataques são constantes, somos ditos doutrinadores, quando o que queremos é derrubar essas doutrinas absolutistas.

O movimento escola sem partido é a prova cabal da tentativa reacionária de calar qualquer voz destoante, qualquer voz que ouse se opor à lógica burguesa, mas não vão conseguir nos calar, até porque, de fato, a luta não é por um partido, mas sim, por uma causa, que é um mundo mais justo e equalitário. Se querem nos acusar de algo, que seja realmente de desejar e de se esforçar por promover um mundo melhor e, se para alcançar esse objetivo, tivermos que lutar contra todo um sistema, que assim seja, afinal, quem abraça a docência o faz por amor e sabe das dificuldades com as quais terá que lidar.

A leitura de Paulo Freire sempre é uma fonte de inspiração e motivação para continuar o trabalho docente, pois nos estimula a exercer a docência no seu sentido mais puro, focada no aluno, no seu crescimento e na sua transformação. Ainda parafraseando o próprio Paulo Freire, não precisamos transformar o mundo, até porque, seria muita pretensão da nossa parte. Como educadores, devemos lutar para transformar as pessoas e, por sua vez, as pessoas vão transformar o mundo.

Finalizo essa reflexão destacando a importância desse olhar mais amplo sobre a Educação, sobre a luta de todo professor, que muitas vezes parece ser maior do que nossas próprias forças, mas que, ao final, fará a diferença, ainda que para uma única pessoa, mas ainda assim, já terá compensado todo o esforço.

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