Diversidade Cultural e os Problemas Causados pela Intolerância e Xenofobia

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O tema da diversidade cultural e dos problemas causados pela intolerância e pela xenofobia, infelizmente, se faz mais atual do que nunca. Em face a crescente escala de intolerância, essa é uma discussão obrigatória em todos os lugares, em especial, no ambiente escolar, que é sim um local para discutir todos os tipos de assuntos, ao contrário do que alguns intolerantes pregam.

Antes de começar a falar dos problemas causados pelas intolerâncias culturais, é necessário compreender o que é a cultura, como ela influencia os costumes e práticas de uma sociedade, além de saber diferenciar o que é cultura e o que é desigualdade. Esses sãos os principais temas tratados nesse texto.

Todas as pessoas têm cultura e, conforme nos relata OLIVEIRA (1991, pag. 74), “a aquisição e a perpetuação da cultura é um processo social – e não biológico – resultante da aprendizagem. Cada sociedade transmite às novas gerações o patrimônio cultural que recebeu dos seus antepassados”.

Vários fatores são responsáveis pelo processo de transmissão cultural, destacando-se a escola e a família. Entender esse conceito de que toda pessoa tem cultura é importante, pois isso já derruba algumas falas, como de que o fulano ou ciclano não tem cultura, ou de que uma cultura é melhor ou pior do que a outra. Existem culturas diferentes, que mudam de acordo com os povos e os tempos, no entanto, essas diferenças não implicam, ou ao menos não deveriam implicar, em relações de poder e dominação, ou seja, assumindo que uma cultura é melhor ou superior do que outra.

Todos os costumes, tradições e comportamentos de uma sociedade compõem a cultura de um povo. Seus valores, a forma como questões sensíveis são encaradas, como por exemplo: a vida, a morte, a sexualidade, as relações sociais, a religião, tudo isso sofre influência da cultura social de onde a comunidade está inserida.

Ainda segundo OLIVEIRA (1991, pag. 38), toda cultura tem dois aspectos: o material e o não material.

A cultura material está relacionada aos utensílios, ferramentas, ou seja, ao conjunto instrumental que faz parte do cotidiano de uma determinada sociedade. Podemos incluir, por exemplo, o hábito de comer em pratos e usar talheres, de usar uma mesa para as refeições, entre outros.

Já a cultura não material está relacionada com questões morais, costumes, ideologias, ciência, artes, religião, entre tudo aquilo que não se encaixa na cultura material.

A esse conjunto de fatos materiais e não materiais, ou ao conjunto de padrões que determinam como uma sociedade se comporta, dá-se o nome de padrão cultural. O padrão cultural se reflete na forma como os membros de uma sociedade agem, normalmente pautados por comportamentos muito parecidos, deixando evidente qual é o padrão vigente daquela sociedade, ou seja, quais comportamentos são tidos como normais e aceitáveis, socialmente falando.

Assim como toda pessoa tem cultura, toda sociedade tem seu padrão cultural, isso é algo natural, no entanto, os problemas começam a surgir quando esse padrão cultural é usado como instrumento para dominação, para a imposição de um padrão cultural sobre outro.

Por mais que alguns padrões nos sejam estranhos, por vezes, mesmo incompreensíveis, não podemos julgá-los como errados somente pelo fato de não pensarmos da mesma forma. Essa fala, normalmente mal interpretada, ou intencionalmente distorcida, acaba sendo usada pelos intolerantes para comparar situações que não possuem equivalência, como por exemplo, para dizer que a “turma dos direitos humanos” defende “bandidos”. Vale ressaltar, ainda que brevemente, que os ditos “bandidos”, na grade maioria das vezes, são as vítimas da intolerância cultural, que por não se adequarem aos padrões impostos, já são marginalizados.

Há que se fazer uma distinção entre o que são diferentes traços culturais, em sociedades distintas, daquilo que é uma distorção de um padrão cultural, praticado por indivíduos da mesma sociedade. Não se pode, por exemplo, usar da questão cultural para justificar um crime de morte em defesa da honra, se na sociedade onde o fato aconteceu o crime de honra não existe. Isso é crime e ponto.

No entanto, em outro contexto, em outra sociedade, por mais absurdo que isso possa me parecer, esse crime pode ser socialmente aceito, aliás, até mesmo legalmente aceito. Tenho o direito de não concordar, mas não posso lançar mão do meu padrão cultural para atacar o outro, considerando que a minha cultura é maior e superior a outra, pois isso seria o que OLIVEIRA (2010) considera como etnocentrismo, ou em outras palavras, quando passo a considerar a minha etnia como o centro ou o eixo de tudo, a referência através da qual passo a julgar o resto do mundo.

A visão etnocêntrica possibilita interpretações distorcidas sobre tudo aquilo que consideramos como diferente, que reforçando, não necessariamente é errado. O termo etnocentrismo foi criado por William Graham Summer, sociólogo americano, no ano de 1906.

Se formos analisar mais a fundo, acabaremos por concluir que o etnocentrismo está por trás de todos os grandes problemas sociais e comportamentais que já assolaram a humanidade, passando pela escravidão, os campos de extermínios nazistas e as constantes guerras entre países, entre toda a questão migratória e os infortúnios a que estão sujeitos todos os migrantes e refugiados.

O Estatuto do Refugiado, elaborado durante uma convenção da ONU realizada em 1951, “Um refugiado ou uma refugiada é toda pessoa que, por causa de fundados temores de perseguição devido à sua raça, religião, nacionalidade, associação a determinado grupo social ou opinião política, encontra-se fora de seu país de origem e que, por causa dos ditos temores, não pode ou não quer regressar ao mesmo”. Moreira (2016, pag. 131)

Aceitar as diferenças deveria ser algo normal, afinal, em essência, todo ser humano é único, com características comuns a tantos outros, mas todos temos nossas características que nos diferenciam de outros seres humanos, portanto, características físicas como cor da pele ou ainda sua orientação sexual, jamais deveriam ser considerados fatores de exclusão, menos ainda, de subjugação de indivíduos.

A aceitação das diferenças é conceituada através do termo interculturalidade ou relações sociais interculturais, que nada mais são do que a natural aceitação das pessoas, tal qual elas são, aceitando que pessoas de culturas diferentes, portanto, com características, costumes e comportamentos próprios, possam conviver de forma harmônica, sem ataques de qualquer natureza.

Para OLIVEIRA (2016, pag. 85) apud Boaventura de Souza Santos: “temos o direito a ser iguais sempre que a diferença nos inferioriza; temos o direito de ser diferentes sempre que a igualdade nos descaracteriza”

Dessa forma, a interculturalidade se opõe ao conceito do etnocentrismo, pois enquanto este se vale de afirmar que uma determinada raça, ou grupo social, são os “certos”, portanto, o padrão a ser seguido por todos os demais, a interculturalidade expressa exatamente o oposto, afirmando que todas as culturas são importantes, que todas devem ser respeitadas, não devendo essas diferenças se tornarem fatores de desavenças ou violências de qualquer espécie.

Conceituada a questão cultural, ou melhor dizendo, da diversidade cultural, passarei a explorar alguns dos problemas causados pela não aceitação dessa diversidade, focando na intolerância e na xenofobia.

A intolerância cultural, infelizmente, é um fato com o qual convivemos diariamente, por vezes, inclusive de forma extremamente pacífica, beirando a cumplicidade.

Ao falar da intolerância cultural, nada melhor do que usar os trágicos exemplos da sociedade brasileira, afinal, é a que convivemos todos os dias e aquela em que observamos uma escalada exponencial da intolerância.

Nossa sociedade, ao contrário do que alguns acreditavam, nunca foi tolerante e “cordial”. Ela sempre foi cordial com seus iguais, com os que se encaixam dentro do padrão socialmente aceito, normalmente representado por um ideal de homem branco, descendente de europeus, heterossexual, cristão, bem instruído e rico. Esse é o estereótipo do dito “cidadão de bem” e, muito provavelmente, único merecedor da “cordialidade social”.

O “inconveniente” é que nossa sociedade, felizmente, vai muito além desse padrão ideal, que claro, como representante de um tipo cultural, também merece respeito, mas não merece ser colocado como um padrão puro e superior, tão pouco, como modelo a ser almejado, nem servir como régua moral para que qualquer outro que não se encaixe nesse padrão seja depreciado ou subjugado.

Essa questão etnocêntrica é tão complexa, que ao analisar os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) de 2019 temos dados, no mínimo, curiosos: 42,7% dos brasileiros se autodeclaram brancos, 46,8% como pardos, 9,4% como pretos e 1,1% como amarelos ou indígenas.

Em resumo, a maioria da população brasileira já se autodeclara como não branca. Diante disso, volto para as questões da intolerância e sua escalada. Uma das possíveis explicações é o próprio desespero do tal “padrão e modelo de homem social”, que notadamente está perdendo seu espaço de dominação e, como todo animal acuado, ataca. Não uso aqui o termo animal no sentido pejorativo, afinal, como já foi dito por Marx, “o homem é por natureza um animal social”.

O aumento da violência pode ser observado em todos os lugares, mas certamente é muito mais gritante entre a população de baixa renda e negra, os considerados periféricos ou marginalizados da sociedade.

O preconceito é algo tão intrínseco que, por maiores que sejam as violências cometidas contra essa população, estas não causam grandes indignações. Dentre milhares de exemplos que poderiam ser dados, cito apenas um dos mais recentes, que foi a chacina do Jacarezinho, no Estado do Rio de Janeiro.

Basta ler qualquer notícia veiculada para prontamente identificar fatores de preconceito e intolerância, como por exemplo, a forma como as vítimas são retratadas, normalmente como “suspeitos”.

A intolerância atinge o ápice ao lermos os comentários dessas matérias, que por uma questão de sanidade mental, deveriam ser proibidos. As vítimas são sempre transformadas em culpadas, bandidas, entre vários outros adjetivos pejorativos. O crime? Normalmente o fato de serem pobres, pretos e moradores de favelas, como se isso tivesse sido uma opção dessas pessoas, não uma condição brutal de exclusão social que já retirou delas praticamente tudo, incluindo a dignidade e, em casos como esses, a própria vida.

A intolerância sempre é brutal contra qualquer diversidade, nem digo contra toda minoria, afinal, a raça branca já é minoria em nossa sociedade, mas não sofre o que sofrem os negros ou pardos, que são maioria. O critério de classificação já não é mais quantitativo, não importa se é maioria ou minoria, importa é ser diferente do padrão estabelecido e aceito como modelo a ser seguido. Reforçando, o padrão branco é MINORIA, mas continua sendo aceito como modelo!

A intolerância também se manifesta de forma brutal contra os não heterossexuais, que é a única forma de sexualidade aceita com naturalidade, sendo que todos os demais, pelos “padrões estabelecidos” merecem ser desprezados, ridicularizados, quando não, eliminados. Dados do Trans Murder Monitoring (“Observatório de Assassinatos Trans”) apontam que, pelo 12° ano consecutivo, o Brasil ocupa a posição de país mais violento para a população trans, sendo o que mais mata (Revista Exame, 2020).

Por último, abordarei a xenofobia, que também temos centenas de exemplos em nossa história recente, sendo que um dos mais impactantes, ao menos pela minha percepção, que foi a execração dos médicos cubanos que participavam do Programa Federal Mais Médicos.

Creio que esse episódio serve para falar de um combo de problemas que envolvem a diversidade cultural, pois além da xenofobia, também envolve questões culturais e raciais. Esses médicos que desempenhavam suas funções normalmente onde nenhum médico brasileiro queria estar, foram execrados, ridicularizados e menosprezados, tanto por parcela da sociedade brasileira, preconceituosa e elitista, como falei há pouco, mas também pela comunidade médica brasileira, num claro sinal de etnocentrismo e xenofobia.

Da mesma forma, nossos vizinhos venezuelanos já foram hostilizados e tiveram sua entrada proibida nas fronteiras do Brasil, haitianos são vítimas de xenofobia praticamente todos os dias, entre qualquer outra pessoa que, seja por qual razão for, escolheu o Brasil para viver, exceção feita, naturalmente, se esse imigrante for algum europeu, hétero e rico, pois esse se encaixa no padrão que pode ser facilmente “importado”.

Nenhum tipo de preconceito deveria ser tolerado, no entanto, o preconceito por xenofobia ainda junta outras questões que proporcionam sofrimento ainda maior às vítimas, como a potencialização da violência, uma vez que a pessoa já foi, na maioria das vezes, obrigada a sair do seu próprio país, por perseguições e pressões de cunho racial, religioso, sexual ou qualquer outro, mas que a fizeram tão mal a ponto de ela decidir sair do seu próprio país. A pessoa está numa cultura diferente da sua, tentando se adaptar, muitas vezes longe da sua família, com histórias pregressas trágicas e ainda sofre com a ignorância do povo que, em tese, deveria proporcionar a sua acolhida.

As discussões sobre as questões culturais sempre suscitam grandes debates, pois a complexidade do assunto não permite que ele se esgote em poucos parágrafos, portanto, esse mesmo texto não encerra, de forma alguma, a discussão sobre o tema.

Concluo reforçando a necessidade de que esse debate seja alvo constante nas escolas, em grupos de bairro e qualquer tipo de agregação social, pois ainda temos um longo caminho a percorrer até que o multiculturalismo seja algo natural em nossa sociedade.

Como disse no início desse texto, meus exemplos e minha fala foram fundamentados na sociedade brasileira, pois é aqui que vivo, mas é claro que os conceitos aqui discutidos podem ser extrapolados para a maioria das sociedades mundo à fora.

O mundo começará a se tornar um lugar melhor quando começarmos a enxergar as diferenças somente como diferenças, não mais como ameaças ou como uma permissão para subjugação de raças e povos. Pode ser mera utopia, mas o que seria do ser humano sem o sonho?

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

IBGE Educa. Pesquisa PNAD 2019. Disponível em: https://educa.ibge.gov.br/jovens/conheca-o-brasil/populacao/18319-cor-ou-raca.html#:~:text=De%20acordo%20com%20dados%20da,1%25%20como%20amarelos%20ou%20ind%C3%ADgenas. Acesso em 03/06/2020.

JUSTO, Gabriel. Pelo 12° ano consecutivo, Brasil é o país que mais mata transexuais no mundo. Revista Exame (19/11/2020). Disponível em: https://exame.com/brasil/pelo-12o-ano-consecutivo-brasil-e-pais-que-mais-mata-transexuais-no-mundo/ . Acesso em 03/06/2020.

MOREIRA, João Carlos. Geografia geral e do Brasil: espaço geográfico e globalização: ensino médio. 3° Edição. São Paulo: Scipione, 2016.

OLIVEIRA, Luiz Fernandes de. Sociologia para jovens do século XXI: manual do professor. 4° Edição. Rio de janeiro: Imperial Novo Milênio, 2016.

OLIVEIRA, Pérsio Santos de. Introdução à Sociologia. 5° Edição. São Paulo: Editora Ática, 1991.

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